5/04/2007


A cruel normalidade habita entre nós.

Num dia de domingo qualquer, na casa de uma amiga de minha irmã, estávamos todos reunidos, os pais dela, a minha mãe e os irmãos assistindo ao filme “ó pai, ó”, filme que se passa em sua maior arte no Pelourinho, retratando os moradores daquele local.
Como todos sabem, As ruas principais do bairro do Pelourinho foram reformadas e ocupadas por diversos estabelecimentos comerciais, desalojando assim, os antigos moradores, que constituiam pessoas de baixo poder aquisitivo.
O que fizeram com estas pessoas? Colocaram nos bairros mais distantes possíveis e imagináveis, como diz uma personagem do filme, até nas Cajazeiras 50. Estas atitudes não tiveram nenhum apoio contraditório da sociedade em geral, aliás, os hipócritas das classes mais altas adoram fazer isso, afastar aquilo que é realmente a dura realidade e viver sua vidinha fingindo que não existe os abaixo da linha da pobreza.
Pensamentos como, “o centro histórico depois da reforma melhorou em grande parte por ter retirado as meretrizes, cafetões e boêmios de lá.” Não que eu seja a favor de prostituição, nem contra, porem vamos ter a consciência que quando se trata de prostituição de alto luxo, com prostitutas universitárias de classe média alta ninguém tem nojo em passar e vê, pois passam despercebidas, como pessoas “de bem” que não sujam a imagem do lugar.
A expressão que mais me deu horror foi proferida por minha mãe, quando falou que depois da reforma teve uma “limpeza” em grande parte do Pelourinho, mais ainda existem ruas adjacentes que tem os antigos moradores. Limpeza? O que é isso? São palavras como estas que me assustam, não por serem ditas, mais por ninguém se assustar ao ouvi-las sendo usadas para refere-se a humanos como nós.
Contudo eu fico feliz por existirem locais bem perto do centro da cidade que tem as pessoas de baixa renda a incomodar as vistas dos que não queriam vê-los ali, quando passam a pé ou de carro, quando as madames sobem a Ladeira da Montanha para irem paras suas casas na Mansão dos Cardeais, corredor da Vitória e afins, trancafiadas em seus vidros fumês para nem sentirem o cheiro do local que desejam profundamente que não exista. O incomodo que causa quando de cima das suas varandas olhando para a Baia de Todos os Santos são obrigados a vê o bairro formado no Gamboa de baixo, por casas simples, porem com pessoas honestas que com o pouco que ganham sustenta suas famílias tentam da um futuro melhor as futuras gerações, com a precária educação pública mantenedora deste sistema que existe a mais de 500 anos em nossa terra, onde os abastados continuam a ter acesso as melhores escolas, aos melhores cargos, as melhores moradas, enquanto os menos favorecidos não lutar para tentar ultrapassar apenas um nível destas castas.
Para minha triste conclusão, o nosso querido centro histórico virou uma representação teatral dos tempos dos tempos colônias, onde as trançadeiras ficam nas ruas de pedra a ganhar algum trocado, mulheres fantasiadas de baianas do candomblé a cobras por fotos que turistas tiram delas, garis negros varem as ruas, ambulantes negros trafegam em busca de fregueses, mulheres negras dispostas a vender o corpo para turistas brancos que andam em charretes que são perfeitas réplicas das antigas, falta apenas o tronco no meio do Terreiro de Jesus e a Faculdade de Medicina voltar a funcionar, para que seus abastados estudantes façam as antigas arruaças e bagunças sem serem importunados pela polícia.

Vanessa Damásio.