Esse texto nasce de um acontecimento que me causou muito incômodo, principalmente por ser com alguém muito próximo a mim: uma garota de 13 anos que alisou os cabelos com escova progressiva.
Vou começar pelos argumentos químicos. Escova progressiva é um método agressivo que destrói a estrutura capilar, na qual muitos produtos deste tipo de intervenção tem soda caustica (que usamos pra desentupir pia). Muitas usuárias desse produto já tiveram seus cabelos destruídos pelo chamado “corte químico” (o cabelo simplesmente parte por completo, ficando totalmente picotado), logo concluo que seja um método agressivo demais para ser usado numa garota de 13 anos.
Porém minha inquietação vai muito além das razões químico, vou entrar no mérito das questões sócio-raciais mesmo, vou ser indigesta, incômoda, aquela que põe o dedo na ferida, pois é incrível como nossa sociedade em sua grande parte tem o costume de amenizar quando se trata de abordar esse tipo de questão, quando se depara com alguém que revela o que é “velado” é tido como radical, idealista e outros adjetivos ligados ao extremismo.
Começo fazendo a seguinte pergunta: Alguém já ouviu falar em método para encrespar o cabelo? Em um produto que age na estrutura de um cabelo liso para deixá-lo crespo como o cabelo da etnia negra? Alguém já ouviu falar numa onda de encrespamento, uma moda onde mulheres que tem seus cabelos naturalmente lisos vão buscar encrespar os cabelos?
Como já esperava, as respostas para essa pergunta serão todas negativas, o máximo que podem dizer é que tem pessoas de cabelo naturalmente liso que fazem dreads, não são muitas pessoas, sendo mais por uma questão da filosofia rastafári. Mais vamos direto ao ponto: E de onde vem a tal fase das escolhas? Digo isso pois ao comentar sobre esse assunto ouvir de uma pessoa muito próxima o argumento que “é fase, está indo na onda das amigas, todo mundo tem essa fase!” Não, não é fase. Fase pra mim é quando alguém vai pra tribo dos pagodeiros, ou funkeiros, ou emos, bicho-grilo, nerds e etc. Fase pra mim é boy band, onde as garotas se acabam de paixão por uma banda de garotos bonitos e vistosos, isso sim é fase, é quando há uma pluralidade, é algo que dá e passa.
Neste quesito alisar cabelo não há pluralidade e sim uma isonomia, todas iguais esteticamente, todas querendo se enquadrar no padrão “Malhação”, onde o lindo protagonista (todos brancos) são perdidamente apaixonados por uma linda garota (todas brancas), e ainda tem a vilã que atrapalha o casal principal, sempre muito estilosa (e branca também). A essa altura tem gente que vai dizer “ahhh... mais tem negros em malhação!”, sim tem, sempre teve os cotistas antes mesmo da política de cotas, sempre teve um casal negro ou então o núcleo favelado sempre composto por negros.
Agora me digam se um adolescente quer pertencer ao grupo menor, menos favorecido, com pouca representação, ou quer ser o centro das atenções, o foco, o exemplo a ser seguido? Então quem ele vai querer ser, os protagonistas ou o sub-núcleo? Já sabendo dessas respostas, então continuo a perguntar, alisar o cabelo é apenas uma fase, momento?
Se for, que fase longa hem? E diante desse debate direcionaram o seguinte comentário: você é muito idealista, também teve sua fase alisada! Realmente tive, durante toda a adolescência diga-se de passagem. Queria ser aceita, queria estar no padrão de beleza, ser admirada, pois os garotos, a mídia massiva, as pessoas na rua, todos falavam que cabelo bom é cabelo liso, e eu como toda adolescente que se preze queria ser bem vista e bem quista. Não foi escolha pois não havia (e não há ainda nos dias atuais) a pluralidade, foi imposição ideológica mesmo. E nesse caso em particular, passei a observar as fotos dessa garota de 13 anos acompanhada de suas colegas e te digo: quase todas com longos cabelos liso e sedosos, é realmente uma questão de fase ou de se enquadrar no padrão estético vigente?
Passei a ter consciência disso adulta, saída desse universo da necessidade estrema de aceitação, já na universidade. Passei a ver que a beleza nas minhas características, na minha etnia, agora eu digo, se eu quiser alisar será uma questão de escolha, não de imposição social (calma, não vou alisar, não combina com minhas características).
Se tudo isso sobre alisamentos fosse algo tranqüilo, de fase, não haveriam produtos químicos tão agressivos a ponto de lhe escravizar por não permitir que seu cabelo volte a estrutura natural, seria algo que iria alternando em fases alisadas, fases crespas, fases trançado e assim por diante. O engessamento aos padrões racistas é explicitamente exposto quando a garota adolescente após algumas semanas depois de usar um produto que não age na estrutura do cabelo diz: Ah! Esse produto não alisa direito, meu cabelo endureceu rápido, quero aplicar outra coisa! Isso mostra a intolerância em aceitar o cabelo como ele é, o cabelo de negro, cabelo crespo, então parte em direção a agressividade da escova progressiva pra alisar em definitivo.
Acredito que para nós, adultos e pais, devem reverter esse quadro de violência psicológica ena qual nossas crianças de jovens negros sofrem no mundo afora. Temos que dentro de casa, no seio familiar, criarmos a conscientização, elevar a estima e a essência das nossas crianças quanto com suas características da etnia negra, afirmando sua beleza apesar da imposição estética do mundo midiático. Como? Que tal comprando bonecos negros? Acho que já é um bom começo!
Vanessa Damásio
Professora de artes, bacharel artes cênicas e pós graduanda em psicopedagogia institucinal.
